2019/01/29

Meras ilusões


 Uma estória baseada em medos vindos dos profundos
calabouços escondidos em terrenos obscuros.
Nada passa por eles, sem que as almas sintam sua força.
Nada se perturba mais do que o frio que corre pelas suas
espinhas, diante das incertezas inexistentes da sua mente.
Aprecie e saiba que no mundo mágico, existem certezas
que se dizem absolutas enfrentando céus e terras
para que você sinta um amargo terror do desconhecido.

Boa leitura! :D

***

        Eu acordei dentro daquele esquisito ônibus, de cor azul meia-noite, sem janelas ou portas. Ele subitamente estava viajando sem qualquer rumo. Eu não sabia onde, como ou quando fui parar lá. Só sabia que a cada curva feita, tentava me segurar para não cair, mesmo que aparentemente nessa realidade, ele estivesse parado no tempo e espaço dessa dimensão. Momentos depois, me peguei conversando tranquilamente com outros ali presentes... quando ela apareceu. Tinha cerca de um metro e setenta, cabelos e olhos claro-escuro. Estava vestindo roupas das quais eu não soube identificar - por mais que eu tentasse - pela pouca luminosidade. Estava quieta de cabeça baixa quando resolveu se recolher em um canto vazio do ônibus. De repente, ela agia e se comunicava de uma maneira diferente, mas fomos todos contagiados de imediato, como se fôssemos enfeitiçados por alguma magia criptografada. Uma outra pessoa, de aparência fosca, pálida e alta, se fez de ponte tradutora entre nós e ela, assim poderíamos acolhê-la em nossa deliciosa conversa.
        Estávamos no contágio das gargalhadas com nossa conversa que corria as maratonas dos longos assuntos inimagináveis, até que alguma coisa surreal aconteceu. Inconsciente e inconsequentemente, aquela menina surpreendentemente começou a se debater e pouco tempo depois caiu desfalecida. Momentaneamente todos nós soubemos de mais dois casos referentes à essa mesma morte, que sem explicações, aconteceram minutos antes ao dela. Os outros dois estavam no outro canto do ônibus - escuro e solitário. Não conseguíamos entender aquelas situações. Eles apenas estavam lá. Corpos estirados, sem vidas. Sonhos perdidos. Em meio a toda aquela incompreensão.
        Como numa sublime magia que não poderia responder nossas próximas perguntas, a menina se transformou em uma boneca, deixando de lado um corpo pálido e gélido que a prendia. Uma boneca pequena, com roupas e sapatos ciano claro e cabelos pretos. Em seguida, vi todas as pessoas que estavam no ônibus, do lado de fora dele enquanto algumas tentavam decidir onde colocariam os três corpos. Mesmo que a menina agora fosse uma boneca, para alguns, era uma pessoa que tinha acabado de morrer, então, deveria ser enterrada como qualquer outro falecido. Apesar da transformação, o seu corpo antigo permanecia ali. Visível e indiscutível.
        "Poderíamos colocar eles dentro do ônibus e depois levá-los às suas cidades de origem." sugeria uma voz na multidão, difícil de identificar. Após muita discussão, o cenário mudou completamente sem que eu pudesse perceber. Quando eu consegui ver alguma luz, estávamos todos andando por um grande labirinto, muito cinzento e feio. Eu não conseguia sentir fome, frio ou qualquer outra sensação de que um corpo necessite. Meu consciente só explodia medo, calafrios e pedia desesperadamente por socorro. A família daquela menina apareceu, porém, a negavam dizendo não ter conhecimento dela. Então, me vi novamente estremecendo de medo atirando a boneca rio abaixo, e vendo o quão longe ela realmente tinha ido. Era o que eu mais desejava. Me livrar dela, que não parava de me seguir.
        Acompanhando-os solitariamente pelo labirinto, me vi com a boneca que instantaneamente apareceu nas minhas mãos. Até que chegamos no fim da trilha. Era um fim horrível e cruel. Onde cada um daqueles viajantes vazios começava a desaparecer. Eles eram sugados para os mais surreais abismos obscuros que apareciam diante dos seus pés, transcendendo as dimensões ali existentes. Quando dei por mim, a boneca já estava longe de mim. Saíam faíscas de desesperos submergindo do solo ao redor daqueles abismos. Um a um sendo engolido sem qualquer demora. Foi nessa hora que fui impulsionada por um extenso terror, e voltei rapidamente pelo labirinto até chegar ao ponto inicial.
        Parei do lado do ônibus e revi todas as cenas que presenciei, que insistiam em ficar em meus pensamentos. Os fenômenos desse ônibus, um labirinto cruel sem escolhas e o sumiço de todas aquelas pessoas. Cada pessoa com seu mundo recheado de momentos sutis, com seus sonhos. Cada pétala de rosa minuciosamente desenhada à mão, desaparecendo sem qualquer motivo. Simplesmente se foram. Varridos pelos espaços vazios de escolhas não nascidas.

***

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